segunda-feira, 8 de fevereiro de 2010

Enredo-Clichê


Os efeitos gráficos de Avatar (EUA,2009) são quase indiscutíveis, eu sei disto. Mas, nesta postagem, prefiro discutir um pouquinho o seu enredo-clichê a ficar babando a qualidade visual do filme (porque isto eu já fiz).
Foram abordados, na historinha e no que a tange, dois aspectos muito interessantes ao nosso tempo(pós-moderno? Creio que sim):
O primeiro se refere ao título mesmo. Um avatar, a prescindirmos da noção e do significado hinduístas da palavra, pode ser algum prognóstico de maravilha científica, tal qual no longa Substitutos (EUA,2009), em que se use outro corpo no dia-a-dia enquanto o original descança em uma cápsula longe de maiores perigos, como ocorreu em ambos os filmes; ou essa palavra pode designar, metaforicamente no contexto social, os vários "eus" fragmentados que desempenham seus inúmeros papéis sociais em suas relações com o outro e consigo próprio.
O segundo aspecto abarca uma visão holística de mundo, no caso Pandora, em que todos os seres são indissociáveis, formando um todo orgânico. A associação desta perspectiva aos atentados contra a Natureza, beirando a calamidade global, é quase instantânea.

O clichê se dá na construção e no desvelar da história. Um homem destemido, que tem por primeiro idioma o inglês (cansei de escrever estadunidense, americano, norte-americano etc.), luta contra um povo que, em sua visão etnocêntrica, lhe seja inferior em costumes,em tecnologia,em crenças e em tudo mais que forme uma nação. Ao que parece, o faz a fim de lhe tomar suas riquezas, suas terras ou destruir os "malvados não civilizados".

Semelhante, para não dizer igual, ao Avatar é o que ocorre em O Último Samurai(2003), em que um capitão americano, matador de índios, vai ao Japão para exterminar os samurais, "estes anacrônicos". Também, no Dança com Lobos(1990), um soldado estadunidense luta contra uma tribo indígena Sioux.

Então, nos três filmes, o que acontece? Os três protagonistas respectivos a cada historinha sofrem o que posso chamar de processo de aculturação. Sim, todos se estabelecem em terras então (ex)inimigas. Mas isto não é tudo! O principal vem agora: Quando o povo de "Pandora", os Sioux e os Samurais são atacados pelos americanos, quem se torna seu herói e salvador? Ora, seu mais novo integrante, o estabelecido, aculturado e, agora, bonzinho americano. Não é fofo? Nunca é uma pessoa da tribo ou do povo-vítima o vingador.Este é sempre o americano!

Politicamente (belicosamente), o governo dos EUA não age tão diferente. Seus soldados invadem países, subjugam-nos, devastam-nos, roubam-lhes as riquezas e, por fim, o que faz seu governo? Obviamente, elege um presidente ou um líder de sua preferência, um quase herói como os heróis supracitados, para que este governe o país, destruído, de maneira a atender as exigências daquele.

Mais: o fato de as pessoas que assistiram ao filme não comentarem, majoritariamente, a respeito de quaisquer pontos tocados por mim neste texto faz crer que, ou reforça a ideia de que, realmente, em nosso tempo, a estética, como diria um rapazinho chamado David Harvey, está absoluta sobre a ética.

quarta-feira, 11 de fevereiro de 2009

Por que o funk vigora.


Antes, esclarecerei que quando a palavra funk é citada, no Brasil, o referente não é o som que James Brown produzia. Escrevo isto para evitar a apelação de musicistas intelectualóides, indivíduos que “não aceitam” que o pancadão seja chamado de funk. Fazem-no, os “etiólogos”, para mostrar erudição. Mas, graças a um certo Saussure, sabemos que nenhum signo tem referente fixo. Portanto, quando funk aparecer neste texto, leia-se pancadão ou, a quem preferir, funk carioca.

Já não cabem mais, à MASSA, canções como “é preciso amar as pessoas como se não houvesse amanhã” e “é preciso saber viver”. Não há, ou parece não haver, mais espaços para ideologias universais no mundo pós-moderno, cujo sujeito, por causa delas, possui identidade incerta. As pessoas cansaram de tantas certezas, verdades e promessas políticas e religiosas, de várias religiões, impregnadas nas canções. “Ideologia/ eu quero uma pra viver”, foi um último grito cansado antes do inevitável ceticismo a tudo isso.

Segundo Terry Eagleton, filósofo e crítico literário britânico,em outras palavras, não há novidades ideológicas e não há transgressão que o sistema não tenha absorvido, senão nos campos da sexualidade e da linguagem, e é nestes que o funk se torna magnífico agente. Vivemos no universo dos espetáculos sociais, temos atração por violência e tragédias, caso contrário, não assistiríamos ao JN, não vibraríamos com Jogos Mortais e com filmes de “ação”, não ficaríamos atentos às intrigas (barracos) dos vizinhos, o programa Casos de Família não daria audiência, o jornal a Tribuna não seria lido, Flora passaria despercebida na teledramaturgia, Rubem Fonseca não seria tão aclamado etc.

O funk, amigos, faz apologia tanto ao sexo quanto à violência, e concebe tudo de maneira lúdica. Se repararmos na melodia, encontraremos fortes semelhanças entre o funk e as parlendas, basta lembrar: “ado, a-ado/ cada um no seu quadrado”, “agora eu tô solteira e ninguém vai me segurar”, “dança da motinha”. É claro que tais letras e melodias provocam irrisão, e isso se deve ao preconceito contra a pobreza, mas é algo um tanto ou quanto inconsciente. Por exemplo, quando se ri dos piadistas nordestinos, que são maioria na mídia, geralmente não se ri das piadas, mas deles, pela maneira peculiarmente nordestina com que as contam. Um arquétipo é o Tonho dos Couros, comediante que se empenha mais no sotaque do que no texto. Ocorre que o Nordeste, na mente dos brasileiros, está associado à pobreza, assim como o funk está associado à favela e ao banditismo.

Há quem ataque o estilo musical dizendo não ser, este, digno de ser chamado música. Alega-se que o funk é de enorme pobreza em sua melodia. Pode até ser, mas, a canção happy birthday to you, embora seja tão pobre quanto, no sentido melódico, é entoada todos os anos. O ataque, na verdade, é uma ofensiva contra um possível eu, contra o Não-eu, que é pobre e inculto, porque, afinal, só há a identificação do sujeito quando este é defrontado com o que ele não é. E, se há ataques, é porque o funk é realmente provocador e envolvente, caso contrário seria tratado com indiferença. Sabe-se que as transformações ocorrem de baixo pra cima na pirâmide social, e o funk , saído da favela carioca, já tem atingido as “altas esferas”. Percebe-se que bons músicos começam a se infiltrar no estilo em busca de lucro, mas estes ainda não passaram dos estúdios, apenas estão no nível da mixagem, em pouco tempo ocuparão os palcos.

A despeito do que dizem em relação à vulgarização da mulher: a sociedade brasileira, machista que é, torna-se total e inevitavelmente permeável à proposta dos funkeiros, que lhe cai como luva.

Como dizem: “é som de preto, de favelado, mas, quando toca, ninguém fica parado”. E não fica mesmo, pois o tamborzão estimula os corpos de maneira que só a física pode explicar, e isto independe de gosto musical.
Enfim, o funk vigora porque, além de tudo que disse, tem alto valor de troca,é fácil de se produzir, e é isto que faz o mundo capitalista “tardio” se mover. Então, "deixa os garoto brincá".

sábado, 17 de janeiro de 2009

Jesus Vida Verão.


Estive ontem num dos maiores eventos do litoral brasileiro, o Jesus Vida Verão, espetáculo evangélico por excelência, que é realizado na Praia da Costa, Vila Velha. Havia uma multidão!Multidão esta que pode ser dividida em pelo menos 5 grupos de relevância, que têm interseções entre si , visto que deram corpo à aglomeração.

O primeiro, formado pelos “artistas”, foi o grupo que compareceu em nome do Senhor Jesus, era o que se dizia... No entanto, sabemos que, se não fosse pelo dinheiro, estaria em Nome do Senhor noutro lugar, onde houvesse a certeza pecuniária. A música que se ouviu foi de péssima qualidade – não estou discorrendo sobre gosto musical, mas de estrutura e trabalho musicais – foi um som que, certamente, resultou de um sincretismo pós-moderno, escrevo isto, porque é clara presença do mantra budista ou hinduísta nas canções executadas no evento, visto que cada uma delas perdurava por, mais ou menos, 10 minutos com repetições consecutivas de uma mesma frase ou palavra, em suma, músicas muito pouco trabalhadas. Além do mais, esta programação – que pretendeu ter, no centro das atenções, Deus – teve, sobretudo, homens com seus instrumentos, luzes e fumaças, aclamados aos gritos de “lindo e gostoso”.

O segundo era composto pelas pessoas mais próximas ao palco, eram aquelas que pretendiam, ali, partilhar seus delírios... Como Freud disse em seu livro, O mal-estar na Civilização: “Um delírio, quando partilhado, deixa de ser considerado delírio”. Sabemos que delírios são, paradigmaticamente falando, substitutos de realidades que nos são insuportáveis. Não me isento dos delírios, mas, como disse Machado: “Entre as minhas ilusões e as suas, prefiro as minhas.”

O terceiro foi, talvez, o maior. Este grupo formou-se de pessoas que se deslocaram de seus lares para fins de sexualidade, isto é indubitável! Quando cito a sexualidade, cito-a em sentido amplo. É evidente que foram para namorar, e isto é natural e compreensível. Mas, pela premência da religiosidade e dos “filósofos de Deus”, os integrantes deste grupo negam a finalidade sexual de sua presença. Isto nos leva a outro assunto, a hipocrisia religiosa, que prefiro referir em outro momento mais oportuno.

O quarto, muito importante, foi o grupo dos assaltantes e batedores de carteira. Estes, por sua vez, estiveram uniformizados com suas correntes prateadas e bonés de aba reta e viam, no espetáculo, uma mina de ouro, dado o seu “ofício”. Você é muito preconceituoso – poderia dizer o leitor, mas, quem não o é? Sei que generalizei e estereotipei, porém, trata-se de uma maioria esmagadora a que descrevi! Bem, é um fato que muitos insistem em negar, escondendo-se atrás de um clichê: Não julgue para que não seja julgado. Para nos consolar, momentaneamente, podemos dizer que são frutos de sociedade injusta, inculta e miserável... O que não deixa de ser verdade.

O quinto talvez seja o que justifique toda esta balbúrdia. Foi composto por comerciantes informais: Vendiam-se cachorro-quente, sanduíches, água, crepe suísso (com “ss” mesmo), refrigerantes e cerveja, muita, dentre outros produtos! Não que isto me espante, mas, é uma informação digna de nota. Outra situação que muito me despertou o interesse foi a em que um homem, engravatado, entregava um folheto enquanto dizia “Jesus te ama” e, em seguida, esforçava-se na venda de bíblias, todas sobre uma mesinha, por “apenas” R$5,00, “está na promoção, hem!”, dizia. Quer dizer – Leve Jesus pra casa por esse precinho.

Meu texto é generalizante ou, quem sabe, monístico? Talvez. Mas, os grupos que pude perceber são maiorias! Existem, sim, subgrupos, eu sei, entretanto, o que pretendi não foi descrevê-los. Enfim, o JVV é um espetáculo pós-moderno digno de ser observado, e acho que meu texto já é um começo.

domingo, 14 de dezembro de 2008

Pagamos caro pra fazer propaganda.


Reificação em ordem alfabética:
775 Brasil, Acostamento, Adidas, Antiqueda, Armani Exchange, Australia Down South, Bad Boy, Banana Republic, BBC Malhas, Billabong, Bisou Bisou, Bruno Minelli, Cantão, Cavalera, Cerruti, Chanel, Christian Dior, Ciclone, Closet Camisaria, Cody, Colcci, Cori, Cruel Maniac, Dakine, Diário, Diesel, Diesel UK , Disritmia, DKNY, Dockers Brasil, Dockers USA, Donna Karan, Dzarm, Ellus, Evidence, Fit, Folic, Forum, Free Surf, Freedom Fog, GAP, Garota de Praia, Gianfranco Ferre, Gregory, Guaraná Brasil, Gucci, Guess?, Hands Off, Hering, Hotgirls, Hugo Boss, Iódice, J. Crew, La Coste, Lee Jeans, Les Filós, Levi's, Lightning Bolt, Lita Mortari, Liz Claibone, Local Motion Hawaii, Long Island, Louis Vuitton, Lui Lui, M.Officer, Makenji, Malwee, Maresia, MCD More Core, Mormaii, Moschino, Natural Basic, Nautica, Nicole Miller, Nike, Nutrisport, Onbongo Brasil, O’neill, Ópera Rock, Osklen, Patachou, Pena, Pó do Pano, Polo, Prada, Puma, pura Mania, Rima Makdesi, Ron Jon, Santa Maria, Slam, Spezzato, Squeeze Jeans, Suit Boutique, Timberland, Tommy Hilfiger, Triton, Trussardi, United Colors of Benetton, Versace, Videbula, Vivavida, W.& L.T., World Wave, Wrangler, Zapping, Zegna, Zinco e Zoomp.

Bem, aí estão algumas das substitutas de nossas personalidades. Nossos caracteres, para nós mesmos e para quem nos enxerga, estão insertos no orbe de significância da marca que utilizamos, ou que nos utiliza. Um freguês não original, um tanto ou quanto ingênuo, diria, como se desse satisfações a si mesmo, "Tipo, eu pago caro, mas a roupa é de qualidade..."

segunda-feira, 8 de dezembro de 2008

Casquinha da Tristeza.



Vila Velha tem, como sabemos, um leque muitíssimo amplo de opções para quem busca lazer... Mas, enigmaticamente, todas as gentes canelas-verdes convergem, em seu afã do final- de- -semana, para um único estabelecimento: O Shopping Praia da Costa.
Lá, elas passeiam, olham os produtos, namoram, olham os produtos, brincam, desejam os produtos, divertem-se, desejam os produtos, até que dá a hora de partir.
Como são avaras estas pessoas! Embora opulentas, não têm coragem de comprar um misérrimo sanduichezinho para seus convivas, não compram sequer um baratíssimo combo, seja este Mcdonald'isiano, Giraffas'iano ou Bob'isiano, e aquela roupinha que cairia muy bien na namoradinha? Nada.
Ao ir embora, só resta aos visitantes, menos por agrado ao outro e a si do que por vergonha e constrangimento, comprar, após eperar um pouquinho em uma fila mínima, uma daquelas casquinhas de sorvete-sabor-misto...
Na próxima vez que for ao Shopping, da Praia da Costa ou de qualquer outro lugar, atente, nem que seja por alguns ínfimos segundos, para os rostos dos que tomam a casquinha da tristeza e para suas expressões, conte em quantas delas vêem-se a satisfação, a alegria e o prazer de tomar um delicioso sorvete...

sábado, 30 de agosto de 2008

Bispo.


-Você não pede a Deus? Só sabe pedir, pedir e pedir...? Agora é hora de ter um compromisso com o Senhor. Deposite, aqui, sua fé, traga o que você acha que Deus merece, não mais!

"Não adoramos. Veneramos!"


"Adorar imagens?! A gente não adora imagens... É só uma questão de respeito à Santa."
- Sei. Acreditei. Agora conta outra...