Os efeitos gráficos de Avatar (EUA,2009) são quase indiscutíveis, eu sei disto. Mas, nesta postagem, prefiro discutir um pouquinho o seu enredo-clichê a ficar babando a qualidade visual do filme (porque isto eu já fiz).
Foram abordados, na historinha e no que a tange, dois aspectos muito interessantes ao nosso tempo(pós-moderno? Creio que sim):
O primeiro se refere ao título mesmo. Um avatar, a prescindirmos da noção e do significado hinduístas da palavra, pode ser algum prognóstico de maravilha científica, tal qual no longa Substitutos (EUA,2009), em que se use outro corpo no dia-a-dia enquanto o original descança em uma cápsula longe de maiores perigos, como ocorreu em ambos os filmes; ou essa palavra pode designar, metaforicamente no contexto social, os vários "eus" fragmentados que desempenham seus inúmeros papéis sociais em suas relações com o outro e consigo próprio.
O segundo aspecto abarca uma visão holística de mundo, no caso Pandora, em que todos os seres são indissociáveis, formando um todo orgânico. A associação desta perspectiva aos atentados contra a Natureza, beirando a calamidade global, é quase instantânea.
O clichê se dá na construção e no desvelar da história. Um homem destemido, que tem por primeiro idioma o inglês (cansei de escrever estadunidense, americano, norte-americano etc.), luta contra um povo que, em sua visão etnocêntrica, lhe seja inferior em costumes,em tecnologia,em crenças e em tudo mais que forme uma nação. Ao que parece, o faz a fim de lhe tomar suas riquezas, suas terras ou destruir os "malvados não civilizados".
Semelhante, para não dizer igual, ao Avatar é o que ocorre em O Último Samurai(2003), em que um capitão americano, matador de índios, vai ao Japão para exterminar os samurais, "estes anacrônicos". Também, no Dança com Lobos(1990), um soldado estadunidense luta contra uma tribo indígena Sioux.
Então, nos três filmes, o que acontece? Os três protagonistas respectivos a cada historinha sofrem o que posso chamar de processo de aculturação. Sim, todos se estabelecem em terras então (ex)inimigas. Mas isto não é tudo! O principal vem agora: Quando o povo de "Pandora", os Sioux e os Samurais são atacados pelos americanos, quem se torna seu herói e salvador? Ora, seu mais novo integrante, o estabelecido, aculturado e, agora, bonzinho americano. Não é fofo? Nunca é uma pessoa da tribo ou do povo-vítima o vingador.Este é sempre o americano!
Politicamente (belicosamente), o governo dos EUA não age tão diferente. Seus soldados invadem países, subjugam-nos, devastam-nos, roubam-lhes as riquezas e, por fim, o que faz seu governo? Obviamente, elege um presidente ou um líder de sua preferência, um quase herói como os heróis supracitados, para que este governe o país, destruído, de maneira a atender as exigências daquele.
Mais: o fato de as pessoas que assistiram ao filme não comentarem, majoritariamente, a respeito de quaisquer pontos tocados por mim neste texto faz crer que, ou reforça a ideia de que, realmente, em nosso tempo, a estética, como diria um rapazinho chamado David Harvey, está absoluta sobre a ética.


